O Projeto

Esta coleção digital pretende dar visibilidade à memória das trabalhadoras e dos trabalhadores que, movidos por um forte sentido coletivo, contestaram decisões patronais e assumiram o controlo dos seus próprios locais de trabalho. Longe de constituírem episódios isolados, estas experiências integraram um movimento social mais amplo, protagonizado pela classe trabalhadora e disseminado por diversas regiões do continente europeu. O projeto inscreve-se no âmbito do Mestrado em Curadoria e Humanidades Digitais da NOVA FCSH, tendo sido desenvolvido por João Pedro Oliveira.

Objetivos da Coleção Digital

Preservação e contextualização da memória da autogestão

A criação desta coleção digital assume-se como um objetivo central do projeto, ao propor uma plataforma dedicada à contextualização e à acessibilidade da memória impressa do movimento autogestionário em Portugal. Apesar da extensa produção científica existente e da relevância social e política destas experiências no período pós-revolucionário, verifica-se a inexistência de uma coleção digital estruturada que reúna, de forma sistemática, as fontes jornalísticas relativas à autogestão e às ocupações.

A coleção procura, assim, colmatar esta lacuna, utilizando as notícias como veículos privilegiados para perspetivar a evolução histórica destes movimentos.

Combate à lógica da “não-notícia”

Outro objetivo fundamental da coleção consiste em contrariar a lógica da chamada “não-notícia”. Ao identificar, organizar e disponibilizar notícias relativas a experiências de autogestão e de ocupação, a coleção assume um papel ativo na valorização destas fontes enquanto registos históricos relevantes.

Defende-se que, embora inseridas num contexto de elevada conflitualidade social e complexidade política e económica, estas experiências nunca estiveram ausentes da cobertura jornalística, tendo antes sido obscurecidas por uma sucessão de acontecimentos de forte impacto político. A coleção procura, assim, inverter essa perspetiva, revelando a continuidade e a diversidade dessa cobertura mediática.

Valorização cultural e democratização da memória coletiva

Do ponto de vista cultural e social, a coleção digital assume um papel de valorização e democratização da memória coletiva. Ao recuperar experiências de autogestão que se encontravam dispersas, fragmentadas ou invisibilizadas, contribui para reforçar a perceção da pluralidade de formas de organização social e laboral que marcaram o período pós-25 de Abril.

O acesso público às fontes transforma o conhecimento histórico em património vivo, promovendo reflexões contemporâneas sobre cidadania, participação coletiva e autonomia social.

Recurso pedagógico para o ensino e a aprendizagem

No plano pedagógico, a coleção digital constitui um recurso inovador para docentes e estudantes, permitindo a integração de exemplos históricos concretos em contextos de ensino formal e informal.

A apresentação estruturada e contextualizada das notícias, greves e ocupações facilita uma compreensão mais próxima e experiencial dos processos de participação coletiva, controlo operário e organização do trabalho, promovendo uma educação crítica sobre história social, trabalho e cidadania.

Apoio à investigação académica e à produção de conhecimento

Do ponto de vista académico, a coleção digital visa facilitar o acesso imediato a fontes primárias, bem como a pesquisa simples ou avançada através dos seus metadados. Esta estrutura permite análises comparativas, a identificação de padrões de ação coletiva e o estudo das relações entre práticas laborais, ocupações e dinâmicas sociopolíticas.

Ao possibilitar o cruzamento de dados, a triangulação de informações e a formulação de novas interpretações, a coleção contribui para o desenvolvimento de conhecimento crítico e para a renovação da investigação historiográfica sobre a autogestão em Portugal.

O que esta Coleção Digital possui?

Esta coleção digital organiza-se em diferentes secções, concebidas para orientar o utilizador na compreensão do projeto, das suas opções metodológicas e do conjunto de fontes disponibilizadas. Cada página cumpre uma função específica no acesso, interpretação e análise da informação.

  • Contextualização

    Apresenta o enquadramento histórico, social e político do movimento de autogestão em Portugal, permitindo compreender o contexto em que emergiram as experiências documentadas na coleção.

  • Metodologia

    Descreve as opções metodológicas adotadas na construção da coleção digital, incluindo os critérios de seleção das fontes, organização dos dados e processos de tratamento da informação.

  • Cronologia das Notícias

    Oferece uma leitura temporal dos acontecimentos, organizando as notícias de forma cronológica para facilitar a compreensão da evolução das experiências de autogestão e ocupação ao longo do tempo.

  • Notícias

    Reúne o conjunto de notícias selecionadas, apresentadas como fontes primárias que documentam diretamente os processos de ocupação, autogestão e organização coletiva do trabalho.

  • Dados

    Disponibiliza informação estruturada e metadados associados às notícias, permitindo análises quantitativas, comparativas e cruzamentos de informação.

  • Bibliografia

    Apresenta as principais referências bibliográficas que sustentam teoricamente a coleção, oferecendo pistas para aprofundamento académico e investigação futura.

  • Contactos

    Disponibiliza os contactos do autor do projeto, permitindo o esclarecimento de dúvidas, sugestões ou propostas de colaboração relacionadas com a coleção digital.

Memória Audiovisual da Autogestão (1974–1979)

Este conjunto reúne uma panóplia diversificada de reportagens e registos televisivos, produzidos ao longo de um período particularmente marcante da história contemporânea portuguesa, entre 1974 e 1979. Os vídeos documentam múltiplas experiências de ocupação, autogestão e organização coletiva do trabalho, abrangendo diferentes setores de atividade — da indústria à agricultura, dos serviços à cultura — e distintos contextos geográficos.

Longe de constituírem uma narrativa homogénea, estes registos evidenciam a pluralidade de respostas ensaiadas pelos trabalhadores num contexto de profunda transformação política, social e económica. As imagens e testemunhos recolhidos permitem acompanhar processos de decisão coletiva, plenários, iniciativas cooperativas e experiências de gestão assumidas diretamente pelos trabalhadores, revelando tanto as expectativas e aspirações que marcaram o período revolucionário como os desafios enfrentados na sua concretização.

Integrados nesta coleção, os vídeos da RTP Arquivos funcionam como fontes primárias audiovisuais, complementando a documentação escrita e contribuindo para uma compreensão mais rica e situada das dinâmicas de autogestão em Portugal no pós-25 de Abril. O seu acesso, mediado por esta plataforma, pretende fomentar a reflexão crítica sobre estas experiências históricas e reforçar a preservação da memória coletiva associada ao trabalho, à ação coletiva e à transformação social.