Sobre

As Paisagens do fogo: Uma história política e ambiental dos grandes incêndios em Portugal (1950-2020) é um projeto de investigação na área da história e das ciências ambientais, acolhido pelo Instituto de História Contemporânea (Universidade NOVA de Lisboa) e pelo Laboratório Associado In2Past, com financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/HAR-HIS/4425/2021). Conta também com o apoio declarado de cinco municípios – Moimenta da Beira, Sernancelhe, Vila Nova de Paiva, Silves e Monchique – e da produtora TerraTreme Filmes.

Estado-da-arte: o que não sabemos

Os incêndios rurais em Portugal têm mostrado uma dimensão imprevista e incontrolada nas últimas décadas. Esta tendência não é exclusivamente portuguesa, integrando-se em dinâmicas ecológicas e industriais do século XX global. Porém, a história dos incêndios em Portugal é excepcional, possivelmente paradigmática, e não foi ainda investigada. Em 2003 e 2005, as áreas ardidas anuais superaram os máximos registados, bem como a soma das áreas ardidas em Espanha, França, Itália e Grécia. No pior dos anos, 2017, arderam cerca de 540 mil hectares de onde resultou a morte de 117 pessoas. Há, para mais, um número crescente de mega-incêndios: nas duas décadas de 1980 e 1990, apenas um incêndio queimou (pouco) mais de 10.000 ha, nos anos 2000 foram onze (com área ardida média de 14.000 ha) e nos anos 2010, dezasseis (média de 25.000 ha). As ciências naturais têm produzido entendimentos sólidos sobre as dinâmicas biofísicas do fogo, mas desconhecemos os processos históricos na base do regime atual de fogo.

Metodologia: perseguir o fogo

O diagrama abaixo sintetiza a estratégia metodológica. Partindo de dois focos de estudo, a serra de Monchique e as serras da Lapa e Leomil, desenvolvem-se três eixos de análise que organizam uma perspectiva agroecológica, político-científica e social e etnográfica sobre as Paisagens do Fogo. A colocação do fogo no centro do inquérito histórico deu origem a variados fios de pesquisa (temas, hipóteses, métodos, fontes, etc.), cujo desenvolvimento, conexão e, por fim, síntese constituem as tarefas do projeto. Esta malha de diferentes usos dados ao fogo – agrícolas ou pastoris, científicos ou estatais, de resistência ou criminais – promove a transformação do objeto de estudo e dispõe-no às práticas de investigação em história, ao mesmo tempo que o conserva, assim desejamos, como realidade biofísica. Nas Paisagens do Fogo, o fogo é um sujeito histórico múltiplo e também um método.

Gestão partilhada

O projeto é composto por uma equipa multi-universitária e multidisciplinar de sete pessoas, a que se juntam por contratação dois recém-doutorados. A informação e decisão segue modos de circulação tendencialmente colaborativos e horizontais. Miguel Carmo e Ana Isabel Queiroz são os pontos focais da gestão administrativa e financeira, assumindo também funções de coordenação. Na prática, a gestão das Paisagens do Fogo assenta em reuniões mensais e na desmultiplicação de equipas de trabalho.

Resultados, divulgação, transformação

Conhecer as paisagens do fogo em Portugal é um desafio empírico mas também metodológico, que tem implicações na compreensão do que é o espaço rural, da história das florestas e do fogo e, também, nas formas de produção de conhecimento, de habitar e produzir. O projeto contempla uma via de integração e divulgação de resultados de feição sumária e técnica, que se dirige aos gestores de políticas territoriais, e uma segunda via de análise histórica crítica com vista a uma política contemporânea do fogo nas serras de Portugal. As conexões entre paisagem e fogo são encaradas enquanto problema de conhecimento histórico que se constitui como história do presente no momento em que interroga os processos que controlam hoje a reprodução das paisagens do fogo. Sem a perspectiva histórica corremos o risco, hoje patente, de excluir o fogo da paisagem para que este volte sempre a ela, como elemento indesejado mas constituinte: as paisagens do fogo.
Anterior Seguinte