Entrevistas

  • "Sem mimo, sem amor, sem nada" (entrevista a Catarina Miguel)

    Catarina Miguel é o nome fictício de uma mulher nascida nas terras da Beira Alta, onde o frio comia os dedos e as dificuldades da vida no campo expulsavam quem ali nascia. Chegou a Lisboa aos doze anos para servir, levada ao engano. A promessa de cidade seria para ir à escola, mas bem cedo se apercebeu da falsidade da história contada pelos familiares. As suas memórias introduzem questões estruturais permanentes nos traços que definem a condição servil doméstica: a fuga da miséria do campo, o engano, o assédio, a solidão perante uma cidade desconhecida, mas também as nuances nas formas de tratamento dos patrões, alguns deles compreensivos e generosos. Mas outros, não. A violência no tratamento atinge proporções mais elevadas no seio da própria família, que pune e maltrata naturalizando a servilidade como substância de inferiorização dos indivíduos. A fuga do trabalho doméstico vai dar-se mais tarde, integrando os serviços de limpeza de um Ministério, em Lisboa.
  • "Tudo mentira que eles nunca fizeram mal às criadas" (Entrevista a Antónia Linhares)

    A experiência de Antónia Linhares enquanto "criada de fora" na casa de uma personalidade ilustre não foi muito longa. Porém, a curta estada foi inversamente proporcional ao impacto que teve na sua vida e à importância do problema que esteve na base da dispensa de serviço por parte dos patrões, em particular, da patroa. Falamos de assédio. Ora, não só por esta razão nos importa conhecer a história de vida de Antónia Linhares. Neste percurso, tal como no de muitas outras trabalhadoras domésticas, fica marcado o elo estruturante entre o serviço doméstico, a pobreza e a doença, em particular como signo de famílias que viviam longe das cidades, marcadas pela mortalidade infantil e pelo trabalho precoce.
  • "A gente chamava-lhe os burgueses" - Entrevista a Rosa Maria

    Rosa Maria nasceu no ano de 1938, em M., uma aldeia situada no distrito de Santarém. O pai era lenhador, a mãe trabalhava na monda do arroz e faleceu quando Rosa tinha 13 anos. Antes de partir para a cidade, trabalhou na apanha do arroz, à jorna. Depois de ter sido posta fora de casa pelo pai, alcoólico, chega a Lisboa com 18 anos à procura de serviço doméstico. É colocada com a ajuda de uma tia numa casa situada no bairro do Restelo. Os patrões trabalham fora de casa: uma professora e um empregado de escritório. O regime de exploração a que se vê entregue leva-a a orquestrar uma fuga. Arranja colocação em casa de uma outra professora, sempre com o auxílio de parentes. A segunda experiência, embora lhe traga melhores recordações, também é associada a experiências de punição física. Passará por outras casas em famílias cuja posição social é aferida por rendimentos intermédios, até casar. Tendo ficado a viver em Lisboa, era dona de uma loja mercearias quando, perto de sua casa, ouviu as primeiras movimentações do 25 de Abril de 1974.
  • "Não tinha liberdade nenhuma."- Entrevista a Mariana Bonfim

    Mariana Bonfim nasceu no ano de 1927 numa aldeia situada perto de Vila Real. A família mendigava para sobreviver. O pai andava de terra em terra à procura de trabalho. Ficou órfã de mãe aos 6 anos. Internaram-na no Asilo de Infância, em Vila Real, onde permaneceu durante 10 anos. Aos 16, a diretora do Asilo arranja-lhe colocação para servir. Passado um ano, é levada para trabalhar em Lisboa, numa casa situada na zona de Santo Amaro. O patrão era engenheiro. Vem ganhar mais 20$00 do que a quantia a que tinha direito em Trás-os-Montes. Faz todo o serviço da casa, acumulando a função de ama. É castigada fisicamente pela patroa pela proximidade afetiva que demonstra ter em relação aos filhos. Cansada de castigos, sai de casa por iniciativa própria e fica ligada a uma família residente na Praça do Saldanha. Ainda frequenta a casa da filha destes patrões, hoje com 90 anos de idade, auxiliando-a nos trabalhos domésticos. O marido de Mariana Bonfim tem problemas de alcoolismo, assim como um dos filhos. Estão alojados numa habitação social, em Lisboa.
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