Fóruns de debate

“Maria-Criada, Maria-Senhora”

Por Inês Brasão (Politécnico de Leiria, IHC - FCSH-UNL)

 

O problema do assédio sexual voltou à ordem do dia naquilo que foi chamado o #Me Too português, intensificado ao longo mês de maio deste ano. Continua a impressionar a forma como a discussão omite quaisquer pontes com a natureza estrutural do assédio sexual na condição servil doméstica. O assédio sexual não é um problema novo, como bem esclarece Isabel Freire em recente entrevista concedida ao Jornal Expresso noo passado dia …, sob o Título “O MeToo não é um assunto novo. É um problema velho, ou o trabalho de Isabel Ventura, “Medusa no Palácio da Justiça, ou Uma História da Violação Sexual”, agraciado com o Prémio Maria Lamas.

A este propósito, não deixa de ser interessante repescar um episódio particular da história da televisão portuguesa, justamente a edição do Festival da Canção de 1976. Foi, antes de mais, uma edição muito particular, na qual Carlos do Carmo assumiu por inteiro a interpretação dos oito temas gerados para o festival. Teve ainda outras particularidades inesquecíveis, como o facto de ser liderada pelo Maestro António Vitorino d'Almeida, a par da apresentação levada a cabo por Eládio Clímaco e Ana Zanatti. O Maestro não se poupou a comentários sobre cada uma das criações musicais e abriu mesmo, à plateia, uma espécie de fórum, no qual os participantes intervinham e teciam considerações sobre a qualidade dos temas, formato este bem ao encontro de uma tão desejada participação mais democrática e horizontal das tomadas de decisão, e em correspondência com o “espírito do tempo”.

 

Das oito canções concorrentes, Maria-Criada, Maria-Senhora” – [“Entrega o seu corpo/Para criar raízes/Oferece amor/e recebe dor”] acabou classificada em oitavo lugar (o último), arrecadando 3,58% dos votos. Da autoria de Tó-Zé Brito, a letra desdobra-se num conjunto vasto de representações acerca da objetificação a que o corpo de Maria Criada estaria sujeito, como mercadoria inclusa no seu trabalho. Mas o que se torna mais interessante nesta edição é aquilo que apraz comentar Vitorino dAlmeida depois de Carlos do Carmo ter interpretado o tema (do minuto 29:00 ao minuto 34:35). O Maestro começa por manifestar que a história contada na canção é uma história simples porque é uma história muito comum. E depois acrescenta: “Há uma coisa verdadeira aqui nesta canção…desculpem, mas a verdade é esta: é que grande parte da educação sexual (soluço de riso) de muitas gerações da nossa sociedade fez-se com casos como este” (cit.)(mais soluços de riso de Almeida), seguido de um riso geral da plateia e do próprio António Vitorino de Almeida. A rematar o seu pensamento, faz algumas considerações sobre o facto de a orquestração da canção talvez devesse ser mais simples, para ir ao encontro da simplicidade da história. Quando ouvida a plateia, pressente-se um misto de incomodidade, ironia e vontade de submeter ao esconso a memória do que ali é contado. AVA pergunta: “Concordam que tenha ficado em oitavo lugar?” – Ao que um dos participantes responde. “Ah, certíssimo!” – O segundo interveniente diz: “Eu declaro até mesmo que a reprovei.”

 

Neste, que pretende ser apenas um pequeno contributo para o debate, parece-nos que a perpetuação histórica, até ao presente, da naturalização do assédio às trabalhadoras domésticas, parece-nos tudo menos simples. Parece mesmo extremamente complexo porque nos ajuda a refletir sobre uma dupla desclassificação de género e de classe institucionalizada e penalizadora desta condição profissional, mas, sobretudo, sistematicamente votada ao riso, à anedota, à superficialidade e à transformação da vítima em agressor. Felizmente, hoje, este debate parece estar a ganhar novos contornos. Oxalá o lastro da história do trabalho servil doméstico (e também hoteleiro) ajude a enquadrar melhor esta forma de violência.

 

Link para um excerto doa primeira parte do Festival da Canção que serviu de mote à reflexão:

https://www.youtube.com/watch?v=5xtrY6opvYY&t=2080s

 

Letra de «Maria Criada, Maria Senhora»

 

Disse adeus aos pais, adeus à montanha

Por trinta dinheiros desceu à cidade

Maria-criada para servir às ordens,

Maria-mulher de menor idade.

Maria tão só numa casa cheia,

Maria tão cheia de se sentir só

Entrega o seu corpo, quer criar raízes

Oferece amor e recebe dó.

Maria que chora, que se entrega a outros,

E a cada domingo não os vê voltar,

Maria que aprende a usar o corpo

Por mais dez dinheiros, para se enfeitar

Perdida por um, perdida por mil

A família longe, sem saber de nada,

Maria-senhora para servir à hora,

Veste-se de seda, já não é criada. (bis)

 

Orquestração: Tó-Zé Brito

reeditado a 11 de outubro de 2021

 

“Ociosos, dependentes e parasitas”

 

Por Inês Brasão (Politécnico de Leiria, IHC - FCSH-UNL)

“A Arte de Viver em Sociedade”, da autoria de Maria Amália Vaz de Carvalho, conheceu a sua primeira edição em 1895 e foi sucessivamente reeditada e inspiradora de outros Manuais de Etiqueta e Civilidade, no contexto português, de que é exemplo “Domesticália”, de Paula Bobone, que escreveu esse livro “para os empregados que se reconhecem nos patrões”. Os códigos de etiqueta não dispensam a arte de administrar a vida privada e, neste caso particular, a autora não se poupa a instruir aquilo que podia ser considerada a “Dona de Casa Perfeita”, cujos dons incluem a arte de adestrar os serviçais da casa. Neste capítulo encontra-se já vertido um conjunto de representações dos serviçais enquanto trabalhadores ociosos, dependentes e parasitas. É uma construção que será alimentada ao longo do tempo e que decorre de outros tempos para trás. Vaz de Carvalho não se poupa a citar As Viagens de Beckford a Portugal, obra que expõe esse parasitismo visto nas cidades, e que curiosamente coloca a questão da falta de ciência dos patrões portugueses privados em gerir melhor os seus próprios recursos humanos – de portas adentro.” Alguns elementos que destacamos da observação da autora são muito interessantes para fazer uma história do trabalho servil, mas também do trabalho em geral. Enaltece-se a necessidade de vigiar a preguiça, de regular a prontidão, da instituição de um saber mecânico nesses afazeres: tudo para combater o “parasitismo” e o “vício”, o que não deixa de ser relevante se pensarmos que, ao contrário, parecem ser os patrões privados quem não dispensava a propriedade e o vício de “deter” serviçais. Ali se encontram também vertidos outros princípios que foram alimentando o servilismo: caridade e bonomia, arte de moralizar os comportamentos infantis, mas sobretudo a arte da deferência: “Nem a familiaridade que lhes permita o desrespeito; nem a secura e a altivez que lhes autorize o ódio hipocritamente coberto sob as fórmulas de veneração oficial.”

Deixamos um excerto integral de: “A Dona de Casa Perfeita” in, “A Arte de Viver em Sociedade”, por Maria Amália Vaz de Carvalho, estudo e actualização do texto de Isabel M. R. Mendes Drumond Braga e Paulo Drumond Braga, Sintra, Colares, 2004, pp. 69-71.

“Os criados não devem nunca ser mais numerosos do que o serviço requer. Nas casas bem organizadas, em que a direcção do trabalho e o seu método racional são estabelecidos, o serviço faz com muito menos pessoal e com muito mais ordem e rapidez.

Portanto, a boa dona de casa tem de atender muito particularmente a este importante objeto: a regularidade do trabalho, o mais razoável sistema para o executar com prontidão, e a maneira de evitar a aglomeração sempre funesta de criados ociosos.

Nas casas francesas, este capítulo de administração doméstica tem atingido a mais alta perfeição mecânica. É pena que não possamos acrescentar e – moral – também. Infelizmente não podemos. A domesticidade tem ali vícios terríveis. Nós em compensação, caíamos no erro hereditário do excessivo parasitismo.

Quem lê, por exemplo, as Viagens de Beckford em Portugal, conhece o interior das grandes casas fidalgas do século XVIII. Centenas de dependentes e de parasitas viviam na sonolenta preguiça e na mendicidade mal disfarçada, à sombra do poderoso fidalgo, protector, patrono e cúmplice.

Muito nos temos ultimamente transformado; os criados já hoje, a não ser em raríssimas casas, deixaram de figurar com o complemento e a prolongação humilde da família, e isto é muitas vezes um mal, mas continuamos a ter criados de mais, embora nem sempre eles sejam tratados com a caridade e a abundância que tal estado de casas exigiria absolutamente.

É ocioso recomendar que a maneira de tratar os inferiores deve ser ao mesmo tempo afável e digna. Nem a familiaridade que lhes permita o desrespeito; nem a secura e a altivez que lhes autorize o ódio hipocritamente coberto sob as fórmulas de veneração oficial. Muita caridade nas doenças, muita intransigência em tudo o que respeite aos deveres fundamentais da moralidade e ordem; muita paciência para ensinar, ensinar continuamente, a quem nem recebeu a elevação que eleva o espírito e o fez escravo dos seus deveres, nem a noção moralizadora e grande que toda a obrigação que se execute, nobilita, contanto que seja rigorosamente cumprida.

A impaciência e o desabrimento com os inferiores são sempre indícios de uma educação reles.»

 

26 de outubro